Coleção de Referência

Mitologia Grega

Deuses, heróis e monstros — e as expressões que eles deixaram na língua que falamos todos os dias.

μῆνιν ἄειδε θεά  ·  Canta, ó deusa, a cólera…

Deuses & Titãs οἱ θεοί

Os imortais do Olimpo e a geração primordial que os antecedeu. As fontes maiores aqui são a Teogonia de Hesíodo (a "genealogia dos deuses") e os poemas homéricos.

Deus · Rei do Olimpo

Zeus

Ζεύς · romano: Júpiter

Senhor do céu, do raio e da ordem. Filho mais novo de Cronos, destronou o pai e dividiu o cosmo com os irmãos: para si o céu, Poseidon o mar, Hades o submundo. Garante a justiça (Zeus Xênios protege hóspedes e suplicantes) e ao mesmo tempo é célebre por suas inúmeras aventuras amorosas.

Fonte clássica "Ζεὺς δ' ἐπεὶ οὖν Τιτῆνας ἀπ' οὐρανοῦ ἐξέλασεν…" — Hesíodo, Teogonia 820 ss. (Zeus expulsa os Titãs do céu). Partilha do mundo: Homero, Ilíada 15.187-193.
No uso moderno

"Olímpico" qualifica algo grandioso, sereno e superior; o "panteão" e os "deuses do Olimpo" viraram metáfora de qualquer elite intocável.

Ele recebeu a crítica com uma calma olímpica.
Deusa · Casamento

Hera

Ἥρα · romana: Juno

Esposa e irmã de Zeus, rainha dos deuses e protetora do matrimônio. Sua marca na mitologia é o ciúme implacável: persegue as amantes de Zeus e os filhos deles — sobretudo Héracles, cujo próprio nome ("glória de Hera") é uma ironia, já que ela o atormentou a vida inteira.

Fonte clássica "βοῶπις πότνια Ἥρη" — "a soberana Hera de olhos de novilha" — epíteto recorrente em Homero, Ilíada (ex. 1.551).
No uso moderno

"Ciúme de Hera" / "fúria de Juno" descrevem um ressentimento vingativo e duradouro contra rivais.

A disputa pela herança despertou um ciúme digno de Hera.
Deus · Mar

Poseidon

Ποσειδῶν · romano: Netuno

Deus dos mares, dos terremotos ("o que sacode a terra") e dos cavalos, armado com o tridente. Na Odisseia é o grande antagonista de Odisseu, prolongando-lhe o regresso por dez anos após o herói cegar seu filho, o ciclope Polifemo.

Fonte clássica "ἐνοσίχθων" — "o que abala a terra" — epíteto homérico; sua cólera move a trama da Odisseia 1.68-79.
No uso moderno

"Netuno" e "tridente" são ícones de tudo o que é marítimo; "cólera de Poseidon" personifica a fúria do mar.

A tempestade chegou como a cólera de Poseidon.
Deus · Submundo

Hades

Ἅιδης · romano: Plutão

Senhor do mundo dos mortos, que leva seu próprio nome. Não é um "diabo": é o administrador severo, porém justo, do além. Raptou Perséfone para ser sua rainha — mito que explica as estações do ano. Possui o elmo da invisibilidade.

Fonte clássica Rapto de Perséfone e o ciclo das estações Hino Homérico a Deméter 1-39; Ovídio, Metamorfoses 5.385 ss.
No uso moderno

"Descer ao Hades" é eufemismo para morrer; o nome batiza desde o planeta-anão Plutão até a estética sombria do "submundo".

Para ela, voltar àquela cidade era descer ao Hades.
Deusa · Sabedoria

Atena

Ἀθηνᾶ · romana: Minerva

Deusa da sabedoria, da estratégia de guerra e do artesanato. Nasceu já adulta e armada da cabeça de Zeus. Padroeira de Atenas (que venceu Poseidon ofertando a oliveira) e mentora de heróis como Odisseu e Perseu. Leva a égide e a coruja como símbolos.

Fonte clássica Nascimento da cabeça de Zeus — Hesíodo, Teogonia 924-926; Hino Homérico 28.
No uso moderno

A "coruja de Minerva" é símbolo da filosofia e do conhecimento; "nascer da cabeça de Zeus" descreve uma ideia que surge pronta e perfeita.

O plano não nasceu da cabeça de Zeus — levou meses de tentativa e erro.
Deus · Sol, Profecia

Apolo

Ἀπόλλων · romano: Apolo

Deus da luz, da música, da poesia, da cura e da profecia — voz do oráculo de Delfos. Irmão gêmeo de Ártemis. Encarna a medida, a clareza e a forma; daí o conceito estético do "apolíneo", oposto ao impulso ébrio do "dionisíaco".

Fonte clássica "γνῶθι σεαυτόν" — "conhece-te a ti mesmo" — máxima inscrita no templo de Apolo em Delfos (Pausânias 10.24.1).
No uso moderno

"Apolíneo" descreve a beleza racional, equilibrada e luminosa (Nietzsche, O Nascimento da Tragédia). O nome batizou o programa Apollo da NASA.

A arquitetura tinha uma frieza apolínea, toda simetria e cálculo.
Deusa · Caça

Ártemis

Ἄρτεμις · romana: Diana

Deusa virgem da caça, da natureza selvagem, da lua e das jovens. Protege a vida silvestre e pune quem a profana — transformou o caçador Actéon em cervo por tê-la visto banhar-se. Implacável defensora de sua independência.

Fonte clássica Castigo de Actéon (transformado em cervo, devorado pelos próprios cães) — Ovídio, Metamorfoses 3.138-252.
No uso moderno

"Diana caçadora" é arquétipo da mulher independente e atlética; dá nome a foguetes (programa Artemis, NASA) e a personagens fortes.

Corria pela trilha como uma Diana caçadora.
Deus · Guerra

Ares

Ἄρης · romano: Marte

Deus da guerra em seu aspecto brutal, sanguinário e caótico — distinto de Atena, que representa a guerra estratégica. Pouco amado até pelos próprios pais. Amante de Afrodite, foi flagrado por Hefesto numa rede invisível, para diversão dos deuses.

Fonte clássica "ἔχθιστος δέ μοί ἐσσι θεῶν" — "és para mim o mais odioso dos deuses" — Zeus a Ares, Homero, Ilíada 5.890.
No uso moderno

"Marte" é sinônimo de guerra e dá nome ao planeta vermelho; "marcial" (lei marcial, artes marciais) deriva dele.

A reunião tomou um tom marcial assim que o orçamento foi cortado.
Deusa · Amor

Afrodite

Ἀφροδίτη · romana: Vênus

Deusa do amor, do desejo e da beleza. Numa versão, nasceu da espuma do mar (aphrós) onde caíram os restos de Urano — daí o nome. Seu cinturão mágico inspira paixão irresistível. Foi o prêmio que desencadeou a Guerra de Troia ao subornar Páris.

Fonte clássica Nascimento da espuma (ἀφρός) — Hesíodo, Teogonia 188-206.
No uso moderno

"Afrodisíaco" (que estimula o desejo) vem direto de seu nome; "Vênus" nomeia o planeta e é padrão de beleza feminina.

Diziam que o chocolate tinha efeito afrodisíaco.
Deus · Forja

Hefesto

Ἥφαιστος · romano: Vulcano

Deus ferreiro do fogo e da metalurgia, o único imortal deficiente e feio — lançado do Olimpo por Hera. Artífice supremo: forjou as armas dos deuses, o escudo de Aquiles e os autômatos de ouro que o ajudavam. Marido (traído) de Afrodite.

Fonte clássica A fabricação do escudo de Aquiles — Homero, Ilíada 18.478-608.
No uso moderno

De "Vulcano" vem "vulcão" — sua oficina ficava sob montanhas em erupção. "Vulcanização" da borracha também o homenageia.

A fábrica rugia como a forja de Hefesto.
Deus · Mensageiro

Hermes

Ἑρμῆς · romano: Mercúrio

Mensageiro dos deuses, com sandálias aladas e o caduceu. Deus das estradas, do comércio, da eloquência, dos viajantes e dos ladrões — e guia das almas ao submundo (psicopompo). Astuto desde recém-nascido, quando roubou o gado de Apolo.

Fonte clássica O roubo do gado de Apolo no primeiro dia de vida Hino Homérico a Hermes 17-67.
No uso moderno

"Mercúrio" nomeia o planeta e o metal líquido; "mercurial" descreve temperamento volátil; "hermético" (fechado, impenetrável) vem de Hermes Trismegisto.

O texto era hermético demais para o leitor comum.
Deusa · Colheita

Deméter

Δημήτηρ · romana: Ceres

Deusa da agricultura, dos grãos e da fertilidade da terra. Quando Hades raptou sua filha Perséfone, mergulhou o mundo no inverno até reavê-la — mas, como a moça comera sementes de romã, deve passar parte do ano no submundo. Assim nascem as estações.

Fonte clássica O luto de Deméter e a origem das estações Hino Homérico a Deméter 305-433.
No uso moderno

De "Ceres" vem "cereal"; o asteroide/planeta-anão Ceres também a homenageia.

O café da manhã era só cereais e frutas.
Deus · Vinho, Êxtase

Dioniso

Διόνυσος · romano: Baco

Deus do vinho, da festa, do teatro e do êxtase que dissolve as fronteiras do eu. Suas seguidoras, as mênades, entram em transe; quem o nega é destruído (como o rei Penteu, despedaçado nas Bacantes). Encarna o impulso "dionisíaco" — caótico, vital, embriagado.

Fonte clássica A vingança contra Penteu, que negara o deus — Eurípides, As Bacantes (esp. 1043-1152).
No uso moderno

"Dionisíaco" descreve o que é desenfreado, sensual e extático (Nietzsche); "báquico" e "bacanal" designam festas desregradas.

A festa virou um bacanal sem hora para acabar.
Titã · Fogo, Engenho

Prometeu

Προμηθεύς — "o que pensa antes"

Titã benfeitor da humanidade: moldou os homens do barro (numa versão) e roubou o fogo dos deuses para entregá-lo a eles. Por isso Zeus o acorrentou a uma rocha, onde uma águia lhe devorava o fígado, que se regenerava todo dia. Símbolo da rebeldia criadora e do progresso pago a alto preço.

Fonte clássica O roubo do fogo e o castigo eterno — Hesíodo, Teogonia 521-616 e Os Trabalhos e os Dias 47-58; Ésquilo, Prometeu Acorrentado.
No uso moderno

"Prometeico" descreve a ambição humana de criar e desafiar limites; o subtítulo de Frankenstein é "O Prometeu Moderno". O elemento promécio o homenageia.

A inteligência artificial é vista por muitos como um fogo prometeico.
Titã · Céu nos ombros

Atlas

Ἄτλας

Titã condenado por Zeus, após a derrota dos Titãs, a sustentar a abóbada celeste sobre os ombros para sempre, no extremo ocidente do mundo. Héracles o substituiu brevemente nessa tarefa para obter as maçãs das Hespérides.

Fonte clássica "οὐρανὸν εὐρὺν ἔχει… ἑστηὼς κεφαλῇ τε καὶ ἀκαμάτῃσι χέρεσσι" — "sustém o vasto céu com a cabeça e os braços incansáveis" — Hesíodo, Teogonia 517-520.
No uso moderno

"Atlas" passou a designar a coleção de mapas (Mercator, séc. XVI) e a primeira vértebra que sustenta o crânio; "carregar o mundo nas costas" evoca seu fardo.

Desde a morte do pai, ele carrega a família como um Atlas.
Primordial · Vazio original

Caos · Gaia · Urano

Χάος · Γαῖα · Οὐρανός

A geração primeira. Do Caos (o abismo/vazio inicial) surge Gaia (a Terra), que gera Urano (o Céu) — e dele tem os Titãs. Cronos, o mais novo, castra o pai a mando da mãe; da espuma e do sangue nascem deusas. É a cosmogonia que abre a Teogonia.

Fonte clássica "ἦ τοι μὲν πρώτιστα Χάος γένετ'" — "em verdade, primeiro de tudo surgiu o Caos" — Hesíodo, Teogonia 116.
No uso moderno

"Caos" hoje significa desordem absoluta; "Gaia" nomeia a hipótese da Terra como organismo vivo (Lovelock); "urânio" e o planeta Urano vêm do Céu primordial.

Sem coordenação, o projeto virou um caos completo.

Heróis & Mortais Notáveis ἥρωες

Semideuses, reis e mulheres cujas histórias se tornaram modelos de coragem, astúcia, amor e tragédia — e fonte de boa parte das expressões abaixo.

Herói · Os 12 Trabalhos

Héracles

Ἡρακλῆς · romano: Hércules

O maior herói grego, filho de Zeus com a mortal Alcmena. Dotado de força sobre-humana, num acesso de loucura enviado por Hera matou a própria família; em expiação, cumpriu os Doze Trabalhos (matar a Hidra e o leão de Nemeia, capturar Cérbero, limpar os estábulos de Áugias…). Após a morte, foi divinizado.

Fonte clássica O catálogo dos Doze Trabalhos — Apolodoro, Biblioteca 2.5.1-12.
No uso moderno

"Trabalho hercúleo" é qualquer tarefa de esforço descomunal; "força de Hércules" é hipérbole de potência física.

Reorganizar todo o arquivo da empresa foi um trabalho hercúleo.
Herói · Guerra de Troia

Aquiles

Ἀχιλλεύς · romano: Aquiles

O maior guerreiro grego em Troia, protagonista da Ilíada, cujo tema é a sua cólera. A mãe, a deusa Tétis, teria mergulhado o bebê no rio Estige para torná-lo invulnerável — mas o calcanhar por onde o segurou ficou desprotegido, e foi ali que uma flecha o matou.

Fonte clássica "μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος" — "Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu" — Homero, Ilíada 1.1. (O detalhe do calcanhar é pós-homérico: Estácio, Aquileida 1.269; Apolodoro, Biblioteca 3.13.6.)
No uso moderno

"Calcanhar de Aquiles" é o ponto fraco de algo ou alguém aparentemente forte. O tendão de Aquiles recebe o nome por isso.

As finanças sempre foram o calcanhar de Aquiles da empresa.
Herói · Astúcia

Odisseu (Ulisses)

Ὀδυσσεύς · romano: Ulisses

Rei de Ítaca, o herói da inteligência e da lábia — "o de muitos ardis". Idealizou o Cavalo de Troia e levou dez anos para voltar para casa, enfrentando o ciclope Polifemo, Circe, as sereias, Cila e Caríbdis. Sua Odisseia é a própria viagem-arquétipo.

Fonte clássica "ἄνδρα μοι ἔννεπε, Μοῦσα, πολύτροπον" — "Fala-me, Musa, do varão de muitos ardis" — Homero, Odisseia 1.1.
No uso moderno

"Odisseia" é toda jornada longa e cheia de provações; "ulisseano/astuto como Ulisses" elogia a esperteza estratégica.

Conseguir o visto a tempo foi uma verdadeira odisseia.
Herói · Atenas

Teseu

Θησεύς

Herói fundador de Atenas. Ofereceu-se para entrar no Labirinto de Creta e matar o Minotauro, ao qual os atenienses pagavam tributo em jovens. Saiu vivo graças ao fio que Ariadne lhe deu. Voltando, esqueceu de trocar as velas negras por brancas — e o pai, Egeu, julgando-o morto, atirou-se ao mar (o Mar Egeu).

Fonte clássica Teseu, o Labirinto e o fio de Ariadne — Apolodoro, Epítome 1.7-11; Plutarco, Vida de Teseu 15-22.
No uso moderno

O "navio de Teseu" é um clássico paradoxo filosófico de identidade (se todas as peças forem trocadas, ainda é o mesmo navio?).

Depois de tantas reformas, a empresa era o navio de Teseu.
Herói · Matador da Medusa

Perseu

Περσεύς

Filho de Zeus e Dânae. Decapitou a Górgona Medusa usando o escudo polido de Atena como espelho (para não olhá-la diretamente e virar pedra), as sandálias aladas e o elmo da invisibilidade. Com a cabeça, petrificou o monstro marinho e salvou Andrômeda.

Fonte clássica A decapitação de Medusa pelo reflexo no escudo — Apolodoro, Biblioteca 2.4.2; Ovídio, Metamorfoses 4.772-803.
No uso moderno

"Olhar Medusa pelo reflexo" é metáfora para enfrentar algo terrível indiretamente, sem encará-lo de frente. Perseu nomeia uma constelação.

Tratou do trauma de viés, como Perseu olhando a Medusa no escudo.
Herói · Argonautas

Jasão

Ἰάσων

Líder dos Argonautas na busca do Velocino de Ouro a bordo do navio Argo. Cumpriu a missão com a ajuda (e a magia) de Medeia, com quem se casou — e a quem depois traiu, desencadeando uma das maiores tragédias gregas. Símbolo do herói coletivo e da expedição arriscada.

Fonte clássica A expedição do Velocino de Ouro — Apolônio de Rodes, Argonáuticas; Apolodoro, Biblioteca 1.9.16-28.
No uso moderno

"Velocino de ouro" e "expedição dos Argonautas" simbolizam a busca de um prêmio supremo e difícil; "argonauta" virou nome de explorador.

O fundo de venture capital era a versão moderna do Velocino de Ouro.
Herói · Pégaso

Belerofonte

Βελλεροφῶν

Domou o cavalo alado Pégaso e matou a Quimera. Mas, embriagado de glória, tentou subir ao Olimpo montado em Pégaso, como se fosse um deus. Zeus enviou um mosca que picou o cavalo; Belerofonte caiu e terminou os dias cego e coxo, vagando sozinho — castigo da soberba (hýbris).

Fonte clássica A queda por querer alçar-se ao Olimpo — Homero, Ilíada 6.155-202; Píndaro, Ístmicas 7.44.
No uso moderno

É a fábula da hýbris: a arrogância de querer ultrapassar a própria condição, punida pela queda — parente do mito de Ícaro.

Achar-se acima das regras foi a hýbris que derrubou o executivo.
Rei trágico · Tebas

Édipo

Οἰδίπους — "pés inchados"

Para escapar de um oráculo que dizia que mataria o pai e desposaria a mãe, foi abandonado em bebê — e justamente por isso cumpriu a profecia sem o saber: matou Laio numa encruzilhada e, após decifrar o enigma da Esfinge, casou-se com a rainha Jocasta, sua mãe. Ao descobrir a verdade, ela se enforca e ele fura os próprios olhos.

Fonte clássica A descoberta da verdade e a autocegueira — Sófocles, Édipo Rei (esp. 1182-1280).
No uso moderno

"Complexo de Édipo" — termo de Freud para o desejo inconsciente da criança pelo genitor de sexo oposto e a rivalidade com o do mesmo sexo.

O analista interpretou o conflito à luz do complexo de Édipo.
Músico · Submundo

Orfeu

Ὀρφεύς

Poeta e músico cujo canto encantava feras, árvores e pedras. Quando sua amada Eurídice morreu, desceu ao Hades e comoveu até os deuses dos mortos, que a libertaram — com uma condição: não olhar para trás até saírem. A um passo da luz, ele olhou. E a perdeu para sempre.

Fonte clássica "flexit amans oculos" — "o amante voltou os olhos" — Virgílio, Geórgicas 4.485-491; Ovídio, Metamorfoses 10.50-63.
No uso moderno

"Não olhar para trás" tornou-se metáfora da confiança que não pode vacilar; "órfico" qualifica o misterioso e musical. Inspira óperas, filmes (Orfeu Negro) e a teoria da gravidade quântica.

Seguiu em frente sem olhar para trás, como Orfeu deveria ter feito.
Rei · O toque de ouro

Midas

Μίδας

Rei da Frígia que, em recompensa, pediu a Dioniso que tudo o que tocasse virasse ouro. Maldição disfarçada de bênção: a comida, a bebida e até a própria filha se transformaram em metal. Implorou para ser livrado do dom. (Noutro mito, ganhou orelhas de burro por julgar mal uma disputa musical.)

Fonte clássica "quidquid tetigero fulvum vertatur in aurum" — "que tudo o que eu tocar se torne ouro reluzente" — Ovídio, Metamorfoses 11.100-145.
No uso moderno

"Toque de Midas" descreve quem tem talento para gerar lucro em tudo — mas também serve de advertência: nem toda riqueza é bênção.

Aquele empresário tem o toque de Midas: tudo em que investe prospera.
Mulher · A primeira

Pandora

Πανδώρα — "todos os dons"

A primeira mulher, modelada pelos deuses como castigo à humanidade depois que Prometeu roubou o fogo. Recebeu um jarro (na verdade um píthos, não uma caixa) que jamais deveria abrir. A curiosidade venceu: ao abri-lo, escaparam todos os males do mundo — restando dentro apenas a Esperança.

Fonte clássica "μούνη δ' αὐτόθι Ἐλπὶς… ἔμιμνε" — "só a Esperança ali permaneceu" — Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 90-105.
No uso moderno

"Caixa de Pandora" é qualquer ação que desencadeia uma série incontrolável de problemas. (A "caixa" é um erro de tradução de Erasmo, séc. XVI — no original é um jarro.)

Reabrir aquele processo foi abrir uma caixa de Pandora.
Mulher · Estopim de Troia

Helena de Troia

Ἑλένη

A mulher mais bela do mundo, filha de Zeus. Esposa de Menelau, rei de Esparta, foi levada (ou raptada) por Páris para Troia — estopim da guerra que reuniu toda a Grécia contra a cidade. "O rosto que lançou mil navios".

Fonte clássica "Was this the face that launch'd a thousand ships…?" — "Foi este o rosto que lançou mil navios?" — Christopher Marlowe, Doutor Fausto (1604), sobre Helena; o rapto está em Homero, Ilíada, e na Eneida.
No uso moderno

"Helena de Troia" é o arquétipo da beleza que move multidões; "o rosto que lançou mil navios" mede a beleza pela comoção que provoca. Daí a unidade jocosa "milihelen" (beleza para lançar um navio).

Para ele, aquela proposta era a Helena de Troia que dividiu a diretoria.
Profetisa · A não-crida

Cassandra

Κασσάνδρα

Princesa de Troia a quem Apolo deu o dom da profecia para seduzi-la. Como ela o recusou, ele lançou a maldição: ela sempre diria a verdade, mas ninguém jamais acreditaria. Previu a queda de Troia e o perigo do cavalo de madeira — e foi ignorada até o fim.

Fonte clássica Os vaticínios desacreditados antes da queda de Troia — Ésquilo, Agamêmnon 1072-1330; Virgílio, Eneida 2.246.
No uso moderno

Uma "Cassandra" é quem faz previsões verdadeiras mas é ignorado; em psicologia, o "complexo de Cassandra" descreve quem não é levado a sério.

Os economistas que alertaram para a crise foram tratados como Cassandras.
Esposa fiel · Astúcia

Penélope

Πηνελόπη

Esposa de Odisseu, modelo de fidelidade e engenho. Durante os vinte anos de ausência do marido, foi assediada por dezenas de pretendentes. Prometeu escolher um quando terminasse de tecer uma mortalha — mas desfazia à noite o que tecia de dia, adiando a decisão indefinidamente.

Fonte clássica O ardil da teia tecida de dia e desfeita de noite — Homero, Odisseia 2.93-110 e 19.137-156.
No uso moderno

"Tela (ou teia) de Penélope" é um trabalho interminável, sempre refeito e nunca concluído.

Corrigir aquele relatório virou uma tela de Penélope.
Princesa · O fio

Ariadne

Ἀριάδνη

Filha do rei Minos de Creta. Apaixonada por Teseu, deu-lhe um novelo de fio para que ele desenrolasse ao entrar no Labirinto e pudesse refazer o caminho de volta após matar o Minotauro. Foi depois abandonada por Teseu na ilha de Naxos — onde Dioniso a desposou.

Fonte clássica O novelo que guia Teseu para fora do Labirinto — Apolodoro, Epítome 1.8-9; Ovídio, Heroides 10.
No uso moderno

"Fio de Ariadne" é o método ou pista que permite achar a saída de um problema complexo, passo a passo.

Aquela única transação suspeita foi o fio de Ariadne da investigação.
Feiticeira · Tragédia

Medeia

Μήδεια

Neta do deus-Sol e poderosa feiticeira. Ajudou Jasão a conquistar o Velocino de Ouro e fugiu com ele. Quando ele a abandonou para um casamento vantajoso, vingou-se de forma terrível: matou a noiva, o sogro e os próprios filhos. Encarnação da paixão que se converte em fúria absoluta.

Fonte clássica "compressi animum" / o infanticídio como vingança — Eurípides, Medeia (esp. 1236-1250).
No uso moderno

O "complexo de Medeia" nomeia, em psicologia, o impulso materno de ferir os filhos para atingir o cônjuge; "uma Medeia" é a mulher movida por vingança devastadora.

A imprensa, sensacionalista, chamou-a de Medeia moderna.
Heroína trágica · Consciência

Antígona

Ἀντιγόνη

Filha de Édipo. Desafiou o decreto do rei Creonte, que proibia sepultar seu irmão Polinices, tido como traidor. Enterrou-o mesmo assim, invocando uma lei superior — a dos deuses e da consciência — contra a lei do Estado. Foi condenada à morte. Símbolo eterno da desobediência civil justa.

Fonte clássica A lei não-escrita dos deuses contra o édito do rei — Sófocles, Antígona 450-470.
No uso moderno

"Uma Antígona" é quem resiste a uma lei injusta em nome de princípios mais altos — referência clássica em ética, direito e filosofia política.

A objeção de consciência dela tinha algo de Antígona.
Mortal · Vaidade

Narciso

Νάρκισσος

Jovem de beleza extraordinária que desprezava todos os que o amavam. Como castigo, apaixonou-se pelo próprio reflexo numa fonte. Incapaz de se afastar da imagem inalcançável, definhou ali e morreu — transformando-se na flor que leva seu nome.

Fonte clássica "se cupit imprudens… atque idem qui probat, ipse probatur" — "deseja-se a si mesmo, sem saber: quem ama e o amado são um só" — Ovídio, Metamorfoses 3.339-510.
No uso moderno

"Narcisismo" — amor excessivo pela própria imagem; em psicologia, o transtorno de personalidade narcisista. Termo central em Freud e na cultura contemporânea.

As redes sociais alimentam um narcisismo de massa.
Ninfa · A repetição

Eco

Ἠχώ

Ninfa castigada por Hera a só poder repetir as últimas palavras dos outros, nunca falar por si. Apaixonou-se por Narciso, mas, incapaz de declarar seu amor, foi rejeitada. De tristeza, definhou até restar apenas a sua voz, repetindo sons pelas montanhas.

Fonte clássica "vocis… imago" — "a imagem (o reflexo) da voz" — Ovídio, Metamorfoses 3.356-401.
No uso moderno

"Eco" é o fenômeno acústico da repetição do som; por extensão, "ecoar" é repercutir, e "câmara de eco" descreve o ambiente em que só se ouvem as próprias opiniões.

As redes viraram câmaras de eco onde cada um só escuta a si mesmo.
Ninfa · Fuga e louro

Dafne

Δάφνη — "loureiro"

Ninfa por quem Apolo se apaixonou perdidamente (vítima de uma flecha de Eros). Para escapar da perseguição do deus, suplicou socorro e foi transformada em loureiro no momento exato em que ele a alcançava. Apolo, então, adotou o louro como sua árvore sagrada.

Fonte clássica A metamorfose em loureiro durante a fuga — Ovídio, Metamorfoses 1.452-567.
No uso moderno

Daí a "coroa de louros" dos vencedores e o "louvor"/"laureado" — quem recebe honra (o "prêmio Nobel laureia" seus ganhadores).

Não convém dormir sobre os louros depois de uma única vitória.

Monstros & Criaturas τέρατα

As feras e seres híbridos que os heróis enfrentaram — muitos hoje sobrevivem como nome de fenômeno, doença, constelação ou metáfora de perigo.

Górgona · Olhar petrificante

Medusa

Μέδουσα

A mais famosa das três Górgonas, com serpentes no lugar dos cabelos e um olhar que transformava em pedra quem a fitasse. Numa versão de Ovídio, fora uma bela jovem punida por Atena. Foi decapitada por Perseu; de seu sangue nasceu o cavalo alado Pégaso.

Fonte clássica "in saxum… verso" — o olhar que converte em pedra — Ovídio, Metamorfoses 4.770-803; Hesíodo, Teogonia 270-281.
No uso moderno

"Olhar de Medusa" é o olhar fulminante que paralisa; a cabeça da Górgona (o "gorgóneion") é amuleto e logotipo (Versace). Em medicina, "cabeça de medusa" nomeia um padrão de veias dilatadas.

Lançou-lhe um olhar de Medusa que calou a sala inteira.
Híbrido · O Labirinto

Minotauro

Μινώταυρος — "o touro de Minos"

Monstro com corpo de homem e cabeça de touro, fruto da união da rainha Pasífae com um touro. O rei Minos mandou Dédalo construir o Labirinto para aprisioná-lo, e ali o alimentava com jovens atenienses — até que Teseu o matou.

Fonte clássica "semibovemque virum semivirumque bovem" — "homem meio-boi e boi meio-homem" — Ovídio, A Arte de Amar 2.24; Apolodoro, Biblioteca 3.1.4.
No uso moderno

"Labirinto" é qualquer estrutura ou situação intrincada de onde é difícil sair; "minotauro" simboliza o perigo escondido no centro de um problema labiríntico.

A burocracia do processo era um labirinto com um minotauro em cada esquina.
Serpente · Regeneração

Hidra de Lerna

Ὕδρα Λερναία

Serpente aquática de muitas cabeças: a cada uma cortada, nasciam duas no lugar. Héracles só a venceu (segundo trabalho) quando o sobrinho Iolau passou a cauterizar cada pescoço decepado, impedindo a regeneração. Símbolo do problema que se multiplica quando atacado pela metade.

Fonte clássica As cabeças que se duplicam ao serem cortadas — Apolodoro, Biblioteca 2.5.2.
No uso moderno

"Hidra" descreve um mal que se reproduz ao ser combatido superficialmente — corrupção, desinformação, crime organizado. "Cortar pela raiz" é a lição.

Combater a fraude sem mudar o sistema é lutar contra uma hidra.
Cão · Guardião do Hades

Cérbero

Κέρβερος

O cão de três cabeças e cauda de serpente que guarda os portões do submundo, deixando todos entrarem mas ninguém sair. Capturá-lo vivo foi o décimo segundo e mais difícil trabalho de Héracles.

Fonte clássica "τρικάρηνον" — "o de três cabeças"; a captura para o Olimpo — Hesíodo, Teogonia 311; Apolodoro, Biblioteca 2.5.12.
No uso moderno

"Cérbero" designa um guardião feroz e incorruptível (um porteiro, um segurança); nomeia softwares de segurança (o protocolo Kerberos) e a planta tóxica Cerbera.

A secretária dele era um cérbero: ninguém passava sem agendamento.
Híbrido · Quimérico

Quimera

Χίμαιρα

Criatura que cospe fogo, mistura impossível de leão, cabra e serpente num só corpo. Foi morta por Belerofonte montado em Pégaso. Por ser uma combinação de partes incompatíveis, virou símbolo do irreal e do fantasioso.

Fonte clássica "πρόσθε λέων, ὄπιθεν δὲ δράκων, μέσση δὲ χίμαιρα" — "leão na frente, serpente atrás, cabra no meio" — Homero, Ilíada 6.181.
No uso moderno

"Quimera" é uma ilusão, fantasia irrealizável ("quimérico"); em biologia, organismo com dois conjuntos de DNA distintos; em engenharia genética, o "antígeno quimérico" (CAR-T).

Sonhar com aposentadoria aos 40 sem poupar é uma quimera.
Híbrido · O enigma

Esfinge

Σφίγξ

Monstro com rosto de mulher, corpo de leão e asas de ave, que guardava Tebas propondo um enigma e devorando quem errasse: "Que ser anda de manhã com quatro pés, ao meio-dia com dois, à tarde com três?". Édipo respondeu — "o homem" — e a Esfinge, derrotada, lançou-se do penhasco.

Fonte clássica O enigma dos quatro, dois e três pés (resposta: o homem) — Apolodoro, Biblioteca 3.5.8; aludido em Sófocles, Édipo Rei.
No uso moderno

"Esfíngico/enigmático" descreve o que é impenetrável e misterioso; "decifra-me ou devoro-te" virou frase feita para desafios sem saída fácil.

O sorriso dela era esfíngico: ninguém sabia o que pensava.
Ninfas · Canto fatal

Sereias

Σειρῆνες

Criaturas (originalmente meio-aves, não meio-peixes) cujo canto irresistível atraía os marinheiros para a morte nos rochedos. Odisseu, querendo ouvi-las e sobreviver, tapou os ouvidos da tripulação com cera e mandou amarrá-lo ao mastro.

Fonte clássica "δησάτ' ἐν ἀργαλέῳ δεσμῷ" — "amarrai-me com fortes laços (ao mastro)" — Homero, Odisseia 12.39-54 e 158-200.
No uso moderno

"Canto das sereias" é a tentação sedutora que leva à ruína; "amarrar-se ao mastro" é o ato de blindar-se contra a tentação antecipadamente.

Ignorou o canto das sereias do crédito fácil e poupou.
Gigante · Um olho só

Ciclopes

Κύκλωπες — "olhos redondos"

Gigantes de um só olho na testa. Numa tradição, são ferreiros que forjam os raios de Zeus; na Odisseia, são pastores selvagens — o mais célebre é Polifemo, que aprisionou Odisseu e seus homens numa caverna e foi cegado por eles para que pudessem fugir.

Fonte clássica "Οὖτις ἐμοί γ' ὄνομα" — "Ninguém é o meu nome" (a astúcia de Odisseu contra Polifemo) — Homero, Odisseia 9.366.
No uso moderno

"Ciclópico" descreve o que é colossal (como as muralhas "ciclópicas"); "olho de ciclope" é metáfora para visão única ou estreita. A síndrome "ciclopia" deve o nome a ele.

Ergueram um muro ciclópico em volta da propriedade.
Duplo perigo · Estreito

Cila & Caríbdis

Σκύλλα καὶ Χάρυβδις

Dois monstros que guardavam um estreito apertado, um em cada margem: Cila, criatura de seis cabeças que arrebatava marinheiros; Caríbdis, um redemoinho que engolia navios inteiros. Passar entre os dois exigia escolher o mal menor — Odisseu perdeu seis homens para Cila a fim de não perder a nau toda em Caríbdis.

Fonte clássica A passagem entre os dois monstros do estreito — Homero, Odisseia 12.85-126 e 234-259.
No uso moderno

"Entre Cila e Caríbdis" é estar entre dois perigos igualmente graves — o equivalente clássico de "entre a cruz e a espada" ou "entre o diabo e o mar profundo".

Demitir ou falir: a empresa estava entre Cila e Caríbdis.
Cavalo alado

Pégaso

Πήγασος

O cavalo alado nascido do sangue de Medusa quando Perseu a decapitou. Foi montado por Belerofonte contra a Quimera. Com um coice, fez brotar a fonte Hipocrene no monte das Musas — daí sua ligação com a inspiração poética. No fim, virou constelação.

Fonte clássica Nascimento do sangue da Górgona; a fonte das Musas — Hesíodo, Teogonia 280-286; Ovídio, Metamorfoses 5.256-263.
No uso moderno

"Pégaso" simboliza a imaginação e o voo poético; é constelação, marca e logotipo (a Mobil/Pegasus). "Soltar o Pégaso" é dar asas à criatividade.

Quando começa a escrever, ela solta o Pégaso.
Monstro primordial · O caos

Tifão

Τυφῶν / Τυφωεύς

O mais terrível dos monstros, filho de Gaia: gigantesco, com cem cabeças de dragão e voz de tempestade. Desafiou o próprio Zeus pelo domínio do cosmo. Após um combate apocalíptico, foi fulminado e soterrado sob o monte Etna, de onde ainda sopra furacões e erupções.

Fonte clássica A batalha final de Zeus contra Tifeu — Hesíodo, Teogonia 820-868.
No uso moderno

De Tifão (via árabe/grego) vem provavelmente "tufão", o ciclone tropical; "tifo" também ecoa a raiz (typhos, fumaça/torpor).

O tufão atingiu a costa com a fúria de um monstro mitológico.
Ave · Renascimento

Fênix

Φοῖνιξ

Ave fabulosa de plumagem de fogo que vive séculos e, ao sentir a morte chegar, constrói uma pira, queima-se e renasce das próprias cinzas. Originária da tradição egípcia, foi descrita pelos gregos como símbolo máximo de ciclo, morte e ressurreição.

Fonte clássica A ave que renasce das cinzas a cada ciclo — Heródoto, Histórias 2.73; Ovídio, Metamorfoses 15.392-407.
No uso moderno

"Renascer das cinzas como uma fênix" descreve quem se reergue após um colapso total — pessoas, empresas, cidades.

Depois da falência, ele renasceu das cinzas como uma fênix.

Expressões & Conceitos Modernos ἀπὸ μύθου εἰς λόγον

Ditados e conceitos do cotidiano cuja origem está num mito grego (ou greco-romano). Vários personagens já apareceram acima — aqui o foco é a expressão em si, com sua fonte e um exemplo de uso.

Expressão · Ponto fraco

Calcanhar de Aquiles

A única vulnerabilidade de algo ou alguém aparentemente invencível. Vem do herói Aquiles, invulnerável exceto no calcanhar por onde a mãe o segurou ao banhá-lo nas águas mágicas do Estige — e foi ali que uma flecha o matou.

Fonte clássica A morte por uma flecha no único ponto vulnerável — Estácio, Aquileida 1.269; Apolodoro, Biblioteca 3.13.6. (Homero não menciona o calcanhar.)
Exemplo A logística sempre foi o calcanhar de Aquiles da operação.
Expressão · Padronização forçada

Cama (leito) de Procusto

Procusto ("o que estica") era um salteador que oferecia pousada aos viajantes numa cama de ferro — e os fazia caber nela à força: serrava as pernas dos altos demais e esticava no potro os baixos demais. Teseu deu-lhe o mesmo tratamento. Metáfora de qualquer padrão arbitrário ao qual se obriga tudo a se ajustar.

Fonte clássica O salteador que ajustava os hóspedes ao tamanho da cama — Apolodoro, Epítome 1.4; Plutarco, Vida de Teseu 11.
Exemplo Aplicar a mesma meta a todas as filiais foi uma cama de Procusto.
Expressão · Males em cadeia

Caixa de Pandora

Ação aparentemente inofensiva que libera uma série incontrolável de problemas. Pandora, a primeira mulher, abriu por curiosidade o jarro proibido (traduzido erroneamente como "caixa") e dele escaparam todos os males do mundo, restando dentro apenas a Esperança.

Fonte clássica O jarro (πίθος) aberto de onde escapam os males — Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 90-105. ("Caixa": erro de Erasmo, séc. XVI.)
Exemplo Mexer naquele contrato antigo foi abrir uma caixa de Pandora jurídica.
Expressão · O guia

Fio de Ariadne

A pista ou método que permite achar a saída de um problema labiríntico. Ariadne deu a Teseu um novelo de fio para que ele, desenrolando-o ao entrar no Labirinto, pudesse refazer o caminho de volta após matar o Minotauro.

Fonte clássica O novelo que conduz Teseu para fora do Labirinto — Apolodoro, Epítome 1.8-9.
Exemplo A planilha de fluxo de caixa virou o fio de Ariadne das nossas finanças.
Expressão · Engano disfarçado

Cavalo de Troia / Presente de grego

Um presente ou oferta que esconde uma armadilha destrutiva. Os gregos fingiram desistir do cerco e deixaram um enorme cavalo de madeira como oferenda; os troianos o levaram para dentro das muralhas — e à noite os soldados escondidos em seu interior abriram os portões.

Fonte clássica "timeo Danaos et dona ferentes" — "temo os gregos, mesmo quando trazem presentes" — Virgílio, Eneida 2.49 (Laocoonte); todo o episódio em Eneida 2.13-267.
Exemplo Aquele "brinde gratuito" cheio de cláusulas era um cavalo de Troia. (Em informática, "trojan" é o malware disfarçado de programa útil.)
Expressão · Esforço inútil

Trabalho de Sísifo

Tarefa árdua, repetitiva e sem fim. Sísifo, rei astuto que enganou a própria Morte, foi condenado no Hades a empurrar eternamente uma pedra montanha acima — e, sempre que chegava ao topo, a pedra rolava de volta.

Fonte clássica "αὖτις ἔπειτα πέδονδε κυλίνδετο λᾶας ἀναιδής" — "de novo a pedra impiedosa rolava até a planície" — Homero, Odisseia 11.593-600. (Ensaio moderno: Albert Camus, O Mito de Sísifo, 1942.)
Exemplo Sem automatizar, lançar esses dados toda semana é um trabalho de Sísifo.
Expressão · Desejo inalcançável

Suplício de Tântalo

Ter o objeto do desejo bem à vista, mas eternamente fora de alcance. Tântalo, por ofender os deuses, foi castigado no submundo a ficar imerso em água até o queixo, sob ramos carregados de frutas: a água baixava quando ele se inclinava para beber, e os galhos subiam quando estendia a mão.

Fonte clássica A água e a fruta que sempre recuam — Homero, Odisseia 11.582-592.
Exemplo Ver a casa dos sonhos e não poder comprá-la era um suplício de Tântalo. (O verbo inglês "to tantalize" vem daí.)
Expressão · Esforço em vão

Tonel das Danaides

Tarefa inútil porque o resultado escoa tão rápido quanto se produz. As cinquenta filhas de Dânao (as Danaides) mataram os maridos na noite de núpcias e foram condenadas, no Hades, a encher eternamente um tonel furado com água carregada em peneiras.

Fonte clássica O tonel sem fundo enchido para sempre — atribuído a tradição órfico-platônica; cf. Platão, Górgias 493b (a alma como "tonel furado"); Apolodoro, Biblioteca 2.1.5.
Exemplo Injetar dinheiro sem cortar gastos é encher o tonel das Danaides.
Expressão · Riqueza fácil

Toque de Midas

O dom de transformar em sucesso (ou lucro) tudo em que se toca. Vem do rei Midas, que pediu a Dioniso o poder de transmutar em ouro tudo o que tocasse — e quase morreu de fome, pois até a comida virava metal.

Fonte clássica O dom do ouro que se torna maldição — Ovídio, Metamorfoses 11.100-145.
Exemplo Com seu toque de Midas, transformou uma loja de bairro num império. (Mas lembre-se: nem todo ouro alimenta.)
Expressão · Pomo da discórdia

Pomo da discórdia

O motivo de uma briga, o objeto que divide. Éris, deusa da discórdia, não convidada para um casamento, atirou entre as deusas uma maçã de ouro inscrita "para a mais bela". A disputa entre Hera, Atena e Afrodite — julgada por Páris — acabou por desencadear a Guerra de Troia.

Fonte clássica A maçã "καλλίστῃ" ("para a mais bela") e o Julgamento de Páris — Apolodoro, Epítome 3.2; Higino, Fábulas 92.
Exemplo A herança da casa de praia foi o pomo da discórdia entre os irmãos.
Expressão · Medo súbito

Pânico

Terror repentino e irracional, sobretudo coletivo. Vem do deus Pã, metade bode, que habitava bosques e montanhas e, ao surgir de repente, provocava nos rebanhos e nos viajantes um pavor súbito e inexplicável — o "terror pânico".

Fonte clássica O "terror pânico" (πανικὸν δεῖμα) atribuído ao deus Pã Hino Homérico a Pã (19); tradição grega sobre o medo súbito nos exércitos.
Exemplo Quando a luz se apagou, o pânico tomou conta da plateia. (Daí também "síndrome do pânico".)
Expressão · Profeta ignorado

Profecia de Cassandra

Um aviso verdadeiro que ninguém leva a sério. A princesa troiana Cassandra recebeu de Apolo o dom de prever o futuro; ao recusá-lo, foi amaldiçoada a nunca ser acreditada. Previu a queda de Troia e foi ignorada até o desastre se consumar.

Fonte clássica A vidente verdadeira em quem ninguém crê — Ésquilo, Agamêmnon 1202-1212.
Exemplo Ele fez uma profecia de Cassandra sobre a bolha — e ninguém ouviu até estourar.
Expressão · Justiça vingadora

Nêmesis

O agente inevitável da retribuição; o adversário fatal que enfim derruba alguém. Vem de Némesis, deusa que pune a hýbris (a soberba desmedida) e restaura o equilíbrio, castigando tanto os arrogantes quanto a felicidade excessiva.

Fonte clássica A deusa que pune o excesso e a desmedida — Hesíodo, Teogonia 223 e Os Trabalhos e os Dias 200.
Exemplo Aquele concorrente acabou sendo a nêmesis da empresa dominante.
Expressão · Conselheiro

Mentor

Conselheiro experiente que orienta alguém mais novo. Na Odisseia, Mentor é o velho amigo a quem Odisseu confia a educação do filho Telêmaco — e cuja forma a deusa Atena assume para guiá-lo. O sentido moderno foi consagrado pelo romance Telêmaco (1699), de Fénelon.

Fonte clássica Atena assume a forma de Mentor para aconselhar Telêmaco — Homero, Odisseia 2.267-295; sentido moderno: Fénelon, Les Aventures de Télémaque.
Exemplo Ela foi minha mentora nos primeiros anos de carreira.
Expressão · Proteção

Sob a égide de

Sob a proteção, o patrocínio ou a autoridade de alguém/algo. A égide era o escudo (ou a couraça) de Zeus e Atena, ornado com a cabeça da Górgona, que inspirava terror nos inimigos e abrigava os protegidos do deus.

Fonte clássica "αἰγίδα… ἀμφιδάσειαν" — a égide temível de Atena/Zeus — Homero, Ilíada 2.446-451 e 5.738-742.
Exemplo O projeto foi conduzido sob a égide do Ministério da Ciência.
Expressão · Era de ouro

Idade de Ouro

O período áureo, de máxima prosperidade e excelência, de uma civilização, arte ou indústria. Vem do mito das cinco idades da humanidade, em que a primeira — a Idade de Ouro — foi um tempo de abundância sem trabalho, doença ou guerra, sob o reinado de Cronos.

Fonte clássica "χρύσεον… γένος" — "a raça de ouro" dos primeiros homens — Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 109-126; Ovídio, Metamorfoses 1.89-112.
Exemplo Os anos 1990 foram a idade de ouro dos videogames de arcade.
Conceito · Beleza fútil

Narcisismo

Amor excessivo e doentio pela própria imagem. Do jovem Narciso, que se apaixonou pelo próprio reflexo na água e definhou diante dele. Freud transformou o mito em conceito psicanalítico central.

Fonte clássica A paixão pelo próprio reflexo na fonte — Ovídio, Metamorfoses 3.402-510. (Conceito: Freud, Introdução ao Narcisismo, 1914.)
Exemplo O discurso dele era puro narcisismo: só falava de si.
Conceito · Desejo materno-paterno

Complexo de Édipo

Termo de Freud para a atração inconsciente da criança pelo genitor de sexo oposto, acompanhada de rivalidade com o do mesmo sexo. Nomeado a partir de Édipo, que — sem o saber — matou o pai e desposou a mãe.

Fonte clássica A profecia cumprida sem o saber — Sófocles, Édipo Rei. (Conceito: Freud, A Interpretação dos Sonhos, 1899.)
Exemplo A teoria do complexo de Édipo é tão influente quanto contestada.
Expressão clássica · Perigo iminente

Espada de Dâmocles

Uma ameaça constante que paira sobre alguém, mesmo em meio ao conforto. Dâmocles, cortesão que invejava o poder do tirano Dionísio I de Siracusa, foi convidado a sentar-se no trono — e descobriu uma espada pendurada sobre sua cabeça por um único fio de crina de cavalo: o preço da glória.

Fonte clássica A espada suspensa por um fio sobre o trono — Cícero, Tusculanas 5.61-62. (Anedota histórico-filosófica grega, não um mito propriamente dito — incluída por sua origem clássica.)
Exemplo A possível demissão pairava sobre ele como uma espada de Dâmocles.
Conceito · Apolíneo × dionisíaco

Apolíneo & Dionisíaco

Par de conceitos estéticos: o apolíneo (de Apolo) é a beleza racional, ordenada, luminosa e contida; o dionisíaco (de Dioniso) é o impulso extático, caótico, sensual e embriagado. Toda obra de arte, segundo Nietzsche, nasce da tensão entre os dois.

Fonte clássica A oposição entre forma (Apolo) e êxtase (Dioniso) — Friedrich Nietzsche, O Nascimento da Tragédia (1872), sobre as divindades gregas.
Exemplo O design era apolíneo; o show de lançamento, puro dionisíaco.
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